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O eremita Desde pequeno, parentes viam um grande futuro para ele. Embora muito tímido, era extremamente inteligente e, coisa não tão frequente em crianças, muito disciplinado. Teve um infância e adolescência tranquilas. Formou-se no segundo grau com louvor, foi homenageado, mas recusou o convite para ser orador da turma. Passou no vestibular na primeira tentativa, em primeiro lugar em duas renomadas universidades. Cursou Física. Após o término da graduação, seguiu na academia. Todos apostavam que seguiria na área de Astrofísica, Astronomia ou, quem sabe, Física Sub-atômica. Entretanto, acabou se interessando por Econofísica. A flutuação dos mercados parecia ser um fascinante objeto de estudo. Defendou sua tese perante uma banca exigente, porém se saiu bem. No mesmo dia recebeu um convite de um quarentão engravatado para fazer parte de sua equipe. "Os fundos que administramos são dos mais agressivos e promissores", dizia ele. Ficou um pouco indeciso, pensou por uns dias e aceitou o convite. Poucos meses e muitas horas depois, ficou milionário, especulando como todo e qualquer tipo de papéis, índices, opções, etc... Enfim, números, seus companheiros, seu mundo. Sentia-se muito a vontade, pois sempre gostou mais de números que de gente. Pessoas o deixavam um tanto desconfortável. Preferia os bate-papos on-line, redes sociais, simuladores de realidade, etc... Não que não convivesse com as pessoas, não tivesse amigos ou namoradas. Apenas preferia o convívio dos números, só isso. Certo dia, saindo do prédio, sentiu uma mão em seu braço: - Aí tio, me dá um trocado? Deu, como de costume. Mas aquele gesto o incomodou. Um toque, sim, um toque. E de um estranho, uma criança desavisada, descolada, descamisada, des qualque coisa, sem eira nem beira, sem se preocupar quem ele era ou deixava de ser. Na verdade um número, como tantos outros das estatíscas sociais. Mas não era um número dos gráficos, era um que saiu de algum painel qualquer e ganhou vido e resolveu... tocá-lo! Desde esse dia não foi mais o mesmo. Começou a se incomodar mais do que de costume. Agora andava assustado, com receio de gente. "E se aquele moleque tivesse me encostado uma arma?". Um número que pulou do painel, alguém tão distante e tão próximo! E tocou, nele, que estava mais acostumado a uma televida de gráficos e índices, que aos apertos e abraços. Logo nele, que falava tranquilamente com clientes na China sem nunca ter lhe apertado as mãos... - O que o senhor tem é estresse - disse o médico. O senhor precisa reduzir um pouco o ritmo. Tomou alguns comprimidos, mas isso não reduziu aquele mal estar do toque. Começou então a lavar de mais as mãos, usar a sempre a mesma cor de gravata e a ter uma estranha sensação de que estava sendo observado. Como se fosse um participante de um realit show, com dezenas de câmeras à sua volta. Os números agora não lhe diziam a mesma coisa e pareciam zombar dele. Teve prejuízos, prejudicou o fundo e foi convidado a tirar umas férias. - Isso que o senhor tem nós chamamos de Síndrome do Contato - disse o psiquiatra. Ainda é pouco frequente, mas o número de casos vem aumentando. É um distúrbio novo, que surgiu nessa era interconectada que vivemos. Algumas pessoas começam a ter uma relação tão íntima com a tecnologia que se desacostumam a se relacionar com outros humanos, a ponto de repudiar o contato físico. Fez um novo tratamento, novos remédios. Mudou de médico, procurou um terapeuta e fez muitas sessões. Apresentou alguma melhora, mas ainda não podia ver uma criança na rua sem ter taquicardia. Foi quando, num belo dia, sentiu uma mão em seu braço: - Aí tio, me dá.... Saiu correndo, desesperadamente. Quando ia atravessar o sinal vermelho, uma mão puxou-o: - Calma filho, o que está acontecendo?! O nome do sujeito já não se lembra mais. Era Vana alguma coisa e se dizia guru. Desde aquele dia, mudou radicalmente de vida. Saiu do fundo, vendeu tudo o que tinha e sumiu mundo afora com as roupas do corpo. Morou em pontes, comeu em botecos, até se isolar numa região distante das cidades, próxima a uma caverna. Um sem número de peregrinos passa lá, hoje em dia, para deixar suas oferendas e levar em troca pranchas de madeira com gravuras e aforismos de sabedoria. Muitos dizem "o eremita é um sábio!". Sim, o eremita é um sábio. Só não sabe que, secretamente, instalaram câmeras em sua morada e que sua vida agora é transmitida vinte e quatro horas, em paper-view.
Escrito por Daniel às 22:22
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Acidente Dormiu. Sonhou estar na Matrix. Acordou assustado, mas ainda era o mesmo avatar. Acordou assustado: não sabia onde estava! Talvez numa UTI.
Escrito por Daniel às 22:20
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