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Hoje li uma matéria sobre a morte de um casal que vivia na Turquia e não se falava há 27 anos. A mullher morreu e o homem ficou tão abalado, que morreu duas horas depois. A notícia me deu a idéia para o texto abaixo. Borboletinha
Faleceram no ano passado, um primeiro, depois o outro. Não se falavam há uns dez anos. Os parentes, vizinhos e amigos não entendiam. Os pais ou avós, se vivos, entenderiam bem menos. Para muitos parecia pura teimosia, loucura, mas não era. Simplesmente desaprenderam a falar. A coisa começou com uma boa briga e passaram uns bons meses, talvez mais de um ano, sem trocarem uma única palavra. Até o dia em que...
Borboletinha diz: o jantar tá pronto
Ele não entendeu nada, e a frase se repetiu:
Borboletinha diz: o jantar tá pronto
João diz: é vc maria?
Borboletinha diz: naum ....... a borboletinha
João diz: nós não estamos nos falando maria ..... já esqueceu???
Borboletinha diz: vc naum entendeu..... não sou a maria e naum estamos nos falando..... estamos teclando
João diz: ???
Borboletinha diz: vc é burro!? naum entendeu!? tamo teclando........ eu sou a borboletinha, vc é........... sei lá..........
Ele então abriu um largo sorriso e saiu. Minutos depois, entrou novamente:
Cachorrão diz: e o que temos para o jantar, minha borboletinha linda?
E a coisa então foi por esse caminho. Compraram um notebook cada um, celular, smart phone.... Nas reuinões, festas, almoços e jantares, os convidados, amigos ou familiares já haviam se acostumado com toques polifônicos e musiquinhas várias:
buuululum 1 nova mensagem ver "Me passa o sal, p favor"
Viveram assim por dez anos, sem trocar uma palavra saída de suas bocas. Até que a notícia chegou, de um acidente, coisa grave. Corpo prum lado, perna pro outro. Quando entregaram o aparelho, uma útlima mensagem salva na pasta rascunho:
"vou chegar tarde. bjs. t amo"
Muito chorou, gritou e um mês depois se foi, sem se despedir, sem deixar recados. No quarto, em cima do móvel, o aparelho. Na pasta enviadas, as últimas palavras:
"naum precisa vir. vou me encontrar c vc. bjs. tb t amo. sua borboletinha"
Escrito por Daniel às 22:15
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Orelha
- Aí mano, fica na sua e num fala nada! - Calma... - Me passa esse nariz! - Como? - O nariz, caralho! - Mas, mas, esse nariz, é... - Iscutaqui mano, eu tô ligado nessa porra. Já vi um desses numa revista. - Tá, tá. Entendi. É um assalto. Mas já vi que você não está armado. - Como não, porra! Não tá vendo o meu dedo? - Escuta aqui amigo, você acha que vai ma assaltar apontando um dedo? - Vixi mano, cê num entende nada memo! Esse dedo tá carregado. É um modelo israelense. Consegui cum camarada lá na quebrada. - Ah, agora entendi! Caralho, um dedo israelense?! - Vai, vai, dexa de papo furado e me dá o seu nariz. - Cara, o meu nariz não é que você está pensando. Ele não serve pra nada... - Cê tá tirando com a minha cara? Um nariz desse tamanho? - É que eu tenho rinite... - Iscuta aqui mano, eu vou meter esse dedo no teu olho e cê vai ficar sem olho, sem nariz, sem porra nenhuma!!! - Calma, amigo... - Amigo o caralho... - Calma, eu sou trabalhador, tenho família, filho pequeno. - Tô pouco me fudendo. E eu vi você falando sozinho. Me dá essa porra de nariz logo. - Tá cara, fica calmo. Não é o nariz, é a orelha... - Orelha!? - É cara, a orelha esquerda, é nela que eu estava falando. - Vixi mano, agora entendi. Caralho, uma orelha. Dessa eu não tinha visto... - Pois é, um camarada me trouxe dos EUA... - Então passa logo essa orelha.. - Ok, espera. Fica calmo. Vou ter que me mexer pra tirar ela fora. - É uma só? - É. - Porra mano, e eu vou ficar com uma orelha de um jeito e outra de outro? Me pasa a outra também. - Mas, cara, a outra é de nascença! - Foda-se! Me dá essa porra logo! - Ma aí eu vou ter que cortar! - Puta que o pariu... Cê merece umas coronhadas, seu filho da puta... - Ma como, se você está só com o dedo... - Meu punho é de ferro. - Pelo amor de Deus, não faz isso. Leva essa orelha e depois eu peço pro meu amigo conseguir a direita e te dou. - Blz, vou quebrar seu galho. E essa parada tem de tudo? - Tudo. É smart ear. Tem jogos, aplicativos neurológicos, GPS, acesso à internet... - Blz. Agora vaza. - (...) - Vai na paz e não olha pra trás...
...
- Porra mano, achei que cê num ia sair mais do banheiro... - Vixi mano, foi foda... - Caralho, cê chegou e já correu pra lá.... rs - Tava mó sufoco... rs. E a parada do sequestro, o que tá rolando? - Meu, a família tá vacilando. - E aí? - Mandei um presentinho pra eles, pá tocá um terror. - O quê!? - Aquela orelha que cê deixou em cima da mesa. - A orelha!!?? Seu vacilão filho da puta...
Escrito por Daniel às 17:59
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Nariz
Hoje, ao ver um nariz da estação de metrô, coloquei-me a pensar. Não era um órgão anormal, nem belo, nem feio. Era um nariz comum, apenas um pouco maior que os demais, talvez com cavidades mais largas que a média, se não me engano. Narizes assim causam uma falsa impressão. Passam a idéia de serem mais competentes no cheirar e para absorver o ar à sua volta. Um equívoco. Muitas vezes eles têm esse formato em virtude de algum problema crônico, como uma rinite alérgica. Não sei ficam assim de tanto coçar ou esfregar, ou por causa de uma tentativa desesperada de capturar o abundante ar que não entra (como se o problema fosse resolvido aumentando-se o volume). Essa falsa impressão do nariz acontece com outras coisas na vida. Muita gente procura objetos mais vistosos que a média, numa tentativa de se destacar. E muita gente que vê um desses objetos o olha com cobiça, supondo que aquele objeto mais vistoso é significado de algo mais útil. Muitas vezes, um objeto mais vistoso é realmente mais útil. Mas, muitas vezes, não passa de um nariz com rinite. Talvez, por ser portador de rinite desde sempre - e ter, por consequencia, um nariz avantajado - eu não tenha tanto apego por objetos vistosos.
Escrito por Daniel às 17:58
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